terça-feira, 15 de maio de 2012

As estranhas reflexões do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior


           O presente texto quer responder a uma série de questões que algumas pessoas me enviaram por e-mail, pedindo-me um parecer sobre as reflexões do Pe. Paulo Ricardo Azevedo Júnior, que estão circulando pela Internet, através de textos e vídeos. Antes de tecermos algumas considerações a respeito do mesmo, é preciso apresentá-lo, brevemente: pertence ao clero da Arquidiocese de Cuiabá (Mato Grosso); ordenado padre em 1992; bacharel em Teologia e mestre em direito canônico; foi, durante 15 anos, reitor do Seminário Arquidiocesano de Cuiabá; desde 2002, membro do Conselho Internacional de Catequese, da Congregação para o clero; autor de livros e apresentador de um programa na TV Canção Nova.

            Expressões pesadas, oriundas de um espírito ultraconservador e fundamentado numa espiritualidade “a partir das alturas”, causaram um desconforto na Arquidiocese de Cuiabá e levaram 27 pessoas, padres e religiosos da mesma Igreja particular, a escreverem uma Carta Aberta à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e ao Arcebispo de Cuiabá, Dom Milton Antônio dos Santos, SDB. Tal Carta foi publicada no dia 27 de fevereiro de 2012. A partir dela se iniciou uma verdadeira campanha em defesa do Pe. Paulo Ricardo, campanha iniciada por aqueles que se consideram seus “filhos e filhas espirituais”.

            Eis um trecho da Carta Aberta: “Diante de um homem amargurado, fatigado, raivoso, compulsivo, profundamente infeliz e transtornado toma-nos, como cristãos e como sacerdotes, um profundo sentimento de compaixão e misericórdia. Diante de suas reiteradas investidas contra o Concílio vaticano II, contra a CNBB e, sobretudo, contra seus irmãos no sacerdócio invade-nos um profundo sentimento de constrangimento e dor pelas ofensas, calúnias, injúrias, difamação de caráter e conseqüentes danos morais que ele desfere publicamente e através dos diversos meios de comunicação contra nós, sacerdotes e bispos empenhados plenamente na construção do Reino de Deus” (para ler toda a Carta basta solicitá-la ao Google!).

            Ao acessar os textos e as palestras em vídeo do Pe. Paulo Ricardo, o leitor atento e dotado de bom senso certamente concordará com o que disseram os padres e os religiosos na citada Carta. Para emitir um parecer a respeito do citado sacerdote resolvi, então, ler alguns de seus textos e assistir a algumas de suas palestras. Confesso que fiquei preocupado. A partir do que li, vi e ouvi, e tendo em vista a Carta Aberta acima mencionada, vou responder aos questionamentos levantados pelos que me escreveram apresentando algumas considerações.

            1 – A eclesiologia pré-Vaticano II. A concepção de Igreja antes do Concílio Vaticano II era a de “sociedade perfeita no meio do mundo”. Entendia-se que a Igreja era a hierarquia: padre, bispo e papa. O povo assistia, passivamente: não lhe era concedida a participação. Na paróquia, o padre ocupava o centro de tudo: tudo sabia e decidia e ai de quem o desobedecesse ou o questionasse. O Pe. Paulo Ricardo tem em mente este modelo de Igreja e o defende. Em muitos lugares ainda encontramos resquícios deste modelo de Igreja: ultrapassado e que não corresponde ao mundo atual. Os católicos de hoje não aceitam mais tal estilo eclesial, pois reivindicam uma Igreja mais aberta, humana, acolhedora, na qual haja mais comunhão e participação (eclesiologia promovida pelo Vaticano II).

            2 – Moralismo e pietismo. Na Igreja, a moral tridentina, portanto, pré-Vaticano II, era essencialmente jansenista. Esta moral pregava uma visão pessimista do corpo humano e defendia excessivamente a concupiscência da carne (inclinação ao pecado). Neste sentido, quase tudo era pecado na vida cristã. A via única para se libertar do pecado consistia em buscar os sacramentos da Penitência (confissão) e Eucaristia. Em torno destes sacramentos, da devoção aos santos e à Virgem Maria criou-se um pietismo que até hoje afeta a Igreja. Oração, missa e sacramentos: eis o caminho da santidade. O Pe. Paulo Ricardo defende esse moralismo e pietismo e por causa destes incorre no pecado da “demonização” do mundo e do cristão não-católico.

            3 – O sacerdote: ministro sagrado, um ser fora do mundo. Antes do Vaticano II, o padre era o homem da sacristia, da batina preta, da oração cotidiana do breviário, que levava uma vida muito diferente da dos demais homens: um ser sagrado e intocável, representante de Cristo na e para a comunidade. Este padre não se importava com questões sociais e políticas, porque tais questões também não interessavam à Igreja. Todo padre tinha o compromisso de trabalhar pela salvação das almas do rebanho que lhe foi confiado. Por isso, mesmo sem ser entendido, era venerado e admirado por todos. Não era permitida nenhuma crítica ao Bispo, muito menos ao Papa. Este último era considerado o representante de Cristo na terra, questioná-lo era como que uma blasfêmia. Ao acusar os padres de comunistas e desordeiros, o que o Pe. Paulo Ricardo realmente deseja é que todos os padres voltem a ser o ministro sagrado, um ser fora do mundo.

            4 – A doutrina da Igreja e o Evangelho. A Igreja é essencialmente missionária e sua missão é anunciar a Boa Nova ao mundo: eis sua missão fundamental. O Pe. Paulo Ricardo estudou isto na Teologia, mas crê em outra coisa. Para ele, o mais importante não é o Evangelho, mas a doutrina da Igreja. Segundo ele, todo sacerdote é guardião e propagador da doutrina da Igreja, porque fora desta não existe salvação. Nesta concepção, Jesus veio ao mundo não para inaugurar o Reino de Deus, como está descrito nos evangelhos, mas para fundar a Igreja Católica e conceber as bases de sua doutrina. A pregação e os escritos do Pe. Paulo Ricardo deixam transparecer claramente esta idéia, que se encerra na seguinte sentença: Jesus salva a partir da observância da doutrina da Igreja, porque esta lhe é fiel em tudo.

            5 – A intolerância religiosa e o preconceito. Pautar o ministério presbiteral na Igreja segundo o que acusamos nos quatro tópicos anteriores remete-nos ao preconceito e à intolerância religiosa. Fora do diálogo, do respeito à diversidade e ao pluralismo religioso e cultural, da compreensão, do bom senso e da caridade não há autêntico anúncio do Evangelho. São justamente estas coisas que faltam na prática ministerial do Pe. Paulo Ricardo, que, explicitamente, semeia e alimenta o preconceito, a intolerância religiosa e o ódio entre as pessoas que não simpatizam com seu estilo intragável, clericalista e anti-eclesial.

            De fato, os Bispos, primeiros responsáveis pela unidade da Igreja, devem estar mais atentos a estes excessos. Estes causam dispersão, divisão e confusão. O anúncio do Evangelho deve congregar as pessoas em torno da verdade do Evangelho de Jesus e não o contrário, como facilmente se percebe nas estranhas reflexões do Pe. Paulo Ricardo. Este parece que se esqueceu de que o amor é o mandamento fundamental que traduz plenamente a mensagem de Jesus. O amor não exige a observância irrestrita da lei, ele não está em função da obediência à lei, mas da liberdade dos filhos e filhas de Deus.

            Concluo esta reflexão citando a compreensão paulina do Evangelho. Para o apóstolo Paulo, o anúncio do Evangelho tem por objetivo libertar as pessoas de toda espécie de escravidão e uma das piores formas de escravidão é a religiosa. A meu ver, o Pe. Paulo Ricardo reforça tal escravidão, pois desconsidera que “é para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei firmes, portanto, e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5, 1).

Tiago de França

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A espiritualidade do caminho (II)


“O caminho se faz caminhando”

            No artigo anterior tentamos elaborar uma idéia sobre o que vem a ser espiritualidade. Frisamos que há diversas espiritualidades e pensamos que espiritualidade é liberdade, é caminho rumo à liberdade. Nossa reflexão está partindo da experiência de Jesus de Nazaré, que, segundo parece, viveu plenamente a experiência da liberdade. Portanto, nossa perspectiva é cristã, mas engloba a totalidade do ser humano. Por isso, nossa ótica é cristã, não religiosa. Claro que ao falar da liberdade experimentada por Jesus somos mais que convidados a lançarmos um olhar sobre o Cristianismo, espécie de movimento humano e espiritual que nasceu a partir de Jesus.

            Antes de falarmos do caminho a que nos propomos propriamente discorrer, penso que seja importante falarmos alguma coisa da experiência de liberdade do Nazareno. Isto porque a experiência dele é como que uma inspiração antiga e sempre nova de uma prática exitosa de liberdade. É muito importante, em primeiro lugar, considerar isto: Jesus viveu na perspectiva da liberdade. Ele não pregou uma ideologia da liberdade, mas procurou viver a liberdade, apesar dos riscos que tal vivência contempla. Nos escritos evangélicos não encontramos nenhum discurso metódico tendo como centralidade uma filosofia da liberdade, mas encontramos um homem que buscou incessantemente ser livre.

            A concretude da vida, longe dos fatos miraculosos criados pela fantasia humana, é o lugar da manifestação da liberdade. Portanto, buscar ser livre é, antes de tudo, procurar viver uma vida normal. A dinamicidade da vida é, em si mesma, instrumento valioso para a prática de atitudes que conduzem à liberdade. O desenrolar da vida, os acontecimentos que nela se dão, desde os mais significativos até os mais banais, são lugares de vivência da liberdade. É preciso, pois, que cada pessoa esteja atenta a si mesma e aquilo que está acontecendo no aqui e agora da existência. Estar acordado: atitude fundamental para perceber em que estágio se encontra no caminho que conduz à liberdade.

            Jesus era um homem acordado. Quem dorme não dá conta de viver a vida. Aliás, não consegue ver a vida, senti-la, experimentá-la, tê-la nas próprias mãos. Com muita facilidade Jesus percebia a si mesmo e aos outros: era um homem sensível, que sabia o que pensava, falava. Ele entendia seu pensamento, palavra e ação; tinha consciência clara de sua missão junto às pessoas. Seus opositores não o aceitavam porque constataram que ele vivia bem acordado. Quem está acordado não tem medo da verdade porque não tem medo da luz, porque aceita a realidade, a vive em plena comunhão. Assim era Jesus.

            Vivendo acordado numa realidade difícil e marcada pelos diversos sinais de morte, Jesus se depara com a grande tentação: a de fugir, entregando-se ao medo. Todo ser humano tende a fugir daquilo que lhe é difícil, perigoso e, conseqüentemente, arriscado e ameaçador. Com Jesus não foi diferente. Ele foi tentado a renunciar à liberdade e a viver aprisionado pelo medo. Diante do medo da morte por causa da escolha feita, resistiu. Resistiu não porque era Deus, mas porque entendeu os motivos pelos quais optou pela liberdade. Ele sabia que a salvação que anunciou ao povo era caminho rumo à liberdade.

            Ao mesmo tempo em que almeja ser livre o ser humano tem medo da liberdade. Jesus percebeu isto claramente e sua atividade missionária levava este dado em consideração. Ele foi considerado louco, desobediente, possesso, um fora da lei. As pessoas não o entendiam, e isto acontecia porque ele pautou sua vida numa outra perspectiva, que não era a da lei mosaica. Não vivia em função desta. Jesus considerou a importância da lei, mas a transcendeu; mostrou para as pessoas que o que importa é viver, e viver em abundância. Quem se torna escravo da lei não consegue viver abundantemente, porque em tal submissão não há liberdade.

            A vida está acima da lei. Somente quem se coloca no caminho da liberdade consegue acreditar e viver esta verdade cristã. Isto não é revolução e/ou insurreição contra as normas necessárias à organização da vida humana, mas caminho de liberdade. A liberdade está na vida, nunca nas leis que organizam a vida humana. Toda lei é imperfeita porque criada pelo ser humano. Este não consegue criar nada perfeito. Motivado pelos próprios interesses, este ser imperfeito sempre cai na tentação de absolutizar a lei em detrimento da vida. No caminho da liberdade acontece o oposto disso.

             Jesus percebeu que tanto as autoridades civis quanto as religiosas absolutizavam a lei em detrimento da vida do povo. Estas autoridades, desmascaradas em sua hipocrisia, perseguiram o profeta Jesus de Nazaré e o condenaram à morte. Com suas denúncias, ele representava uma ameaça constante ao sistema de exploração do povo. Causava ódio nas autoridades ver um pobre homem, vindo de Nazaré da Galiléia, anunciar o Reino de Deus ao povo. Como tolerar um pobre homem se opor a um sistema tal cruel e desumano como o que era mantido pelo Império Romano?... Mataram-no, impiedosamente.

            O anúncio do Reino é anúncio da liberdade. Os seguidores da primeira hora ousaram anunciar este Evangelho ao mundo. Hoje são poucos os que ousam anunciá-lo. No hoje das Igrejas cristãs a pregação passa longe do anúncio do Reino. Falar deste Reino é perigoso, gera confusão, as pessoas não aceitam. O que a maioria quer é outra coisa, menos ouvir falar da mensagem da liberdade anunciada por Jesus. De modo geral, as pessoas querem resolver seus problemas, querem um Deus “tapa-buraco”, que as socorra segundo suas necessidades e desejos. O importante é satisfazer os desejos: esta é a fé que muita gente professa.

            A espiritualidade do conflito era a espiritualidade de Jesus: sua vida foi um permanente conflito. Há conflitos onde há busca pela liberdade; do contrário, quando a pessoa evita entrar em conflito com as forças que se opõem à verdade e à liberdade, sua vida se tranqüiliza, ela goza a “paz”. Não são muitas as pessoas que lutam pela verdade e pela liberdade; a maioria dos conflitos é para encobrir a mentira e manter a alienação. O anúncio do Reino contempla a denúncia: o anúncio da verdade que desmascara a vida hipócrita dos mentirosos. Este é o perigoso conteúdo do anúncio do Reino: a verdade que liberta.

            Assim sendo, percebe-se que a espiritualidade do caminho é uma espiritualidade do conflito. No próximo texto veremos as implicações práticas na vida de quem se dispõe a viver segundo esta espiritualidade. Tais implicações parecem visíveis, mas é necessário clarear e/ou discorrer sobre outras intuições que merecem ser consideradas. Nossas reflexões se propõem a ser conforme o título: caminho. A idéia de caminho leva ao infinito. Nas entrelinhas da história há personagens que se propuseram a viver a vida segundo a espiritualidade de Jesus. Quem sabe, antes de nos adentrarmos à reflexão sobre o caminho em si, seja necessário aprofundar mais um pouco o sentido da espiritualidade de Jesus a partir do testemunho de alguma pessoa que tenha ousado viver de tal modo.


Tiago de França

sábado, 28 de abril de 2012

O Pastor e os pastores


“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10, 11).

O quarto Domingo do Tempo Pascal é chamado Domingo do Bom Pastor, porque o texto evangélico faz alusão à figura do pastor que dá a vida por suas ovelhas. É momento oportuno para um sincero e honesto olhar sobre o ministério dos pastores do povo de Deus. No texto evangélico da liturgia deste Domingo (Jo 10, 11 – 18) Jesus dá ênfase ao dar a vida: expressão que se repete quatro vezes no texto. Ele faz questão de dizer que dá sua vida, livremente.

É na perspectiva da doação da própria vida que refletiremos sobre o ministério de nossos pastores. Historicamente, na Igreja, é pastor quem faz parte da hierarquia, e quem não é ordenado ainda é visto como ovelha. Esta configuração, aos poucos, está mudando, pois não está sendo aceita facilmente. Na posse de bispos e padres, estes são denominados pastores do rebanho do Senhor que lhes é confiado. Pesa sobre eles a responsabilidade de conduzir e santificar o povo de Deus. A história da Igreja é marcada pelo testemunho de muitos pastores, que deram sua vida em nome do Evangelho de Cristo.

O que é necessário para dar a vida em nome de Jesus e de seu Evangelho? O texto responde o seguinte: é necessário conhecer as ovelhas, conduzi-las, importar-se com (cuidar) delas e, por fim, dar a vida com liberdade. Vamos pensar sobre cada uma destas atitudes.

É necessário conhecer

A relação entre pastor e ovelha é de proximidade. Não se pastoreia ovelhas no campo sem que haja aproximação, contato, comunicação, encontro. Na vida da Igreja, o diácono e o padre são os que mais se aproximam das pessoas. Apesar desse esforço por parte de muitos, é preciso reconhecer um grave pecado: não é pequeno o número de padres que se dedicam quase que exclusivamente à administração burocrática de suas paróquias e se esquecem de se aproximar das pessoas. O contato com o povo se encerra na administração sacramental.

São diversos os motivos que explicam tal afastamento: há os que não gostam de se “misturar” com o povo simples (conheço alguns que tem verdadeira aversão à gente pobre!); há os que não se encontram no meio dos pobres, não sabem se colocar no meio deles, sentem-se “perdidos”; há os que mantêm contatos somente com aquelas pessoas e famílias abastardas etc. Sem equívoco algum podemos denominar estes pastores de funcionários do altar ou meros representantes da Igreja: não arriscam suas vidas e seu ministério corresponde unicamente à administração dos sacramentos. Deles nada se pode esperar a não ser isto.

É necessário conduzir

Na relação pastor-ovelha aparece a necessidade de o pastor conduzir a ovelha ao curral. Há ovelhas que precisam de ajuda, orientação; precisam ser encaminhadas ao curral, pois correm o risco de ficar no caminho, esquecidas. Na vida da Igreja acontece a mesma coisa: há pessoas que precisam de uma orientação, de acompanhamento, de esclarecimento, de alguém que lhes aponte o caminho. Mesmo sabendo disso, há pastores que cometem um grave pecado: pensam que as pessoas são totalmente ignorantes e as infantilizam.

“Quem manda nesta paróquia sou eu! Nada pode acontecer sem a minha permissão, sem que eu fique sabendo com antecedência!”: eis a expressão e/ou o modo de pensar e agir do pastor inseguro, de autoridade frágil, controlador e manipulador das pessoas. Este tipo de pastor pensa que o leigo só acerta na decisão e na ação se for orientado por ele. Sentindo-se o dono da comunidade paroquial tenta controlar a todos, e toda pessoa que se recusar à sua autoridade é perseguida, humilhada e excluída. Não poucos os pastores que incorrem neste erro. O orgulho, a prepotência e a vaidade caracterizam bem este tipo de pastor. São impulsionados pela sede incontrolável pelo poder. Os que assim procedem prestam um desserviço à Igreja

É necessário cuidar

O verdadeiro pastor está atento à vida de suas ovelhas, procura saber de seu estado de saúde, como estão se sentindo, se estão bem alimentadas, se vivem bem e estão felizes. Ele cuida delas porque quer sua verdadeira felicidade. Na vida eclesial, o pastor deve não somente cuidar da dimensão espiritual da vida do rebanho do Senhor como também da dimensão corporal (humana) das pessoas. A formação dos pastores da Igreja dá muita ênfase ao cuidado espiritual via sacramentos e se esquece que o ser humano é, antes de tudo, corpo. Não adianta cuidar do espírito sem antes cuidar do corpo.

Jesus de Nazaré, o bom pastor, cuidava do corpo das pessoas: procurou libertar as pessoas de suas doenças, perturbações, angústias. O anúncio do Evangelho não parte das realidades espirituais, mas das corporais, mundanas, materiais. A maior parte dos sofrimentos que afligem as pessoas está ligada à dimensão corpórea: há famintos, doentes, desempregados, perseguidos, injustiçados, portadores de diversas deficiências etc. As pessoas querem comer, estudar, se divertir, trabalhar, ter saúde etc.

É necessário dar a vida com liberdade

Jesus deu sua vida com liberdade. Sua morte não foi premeditada, mas foi conseqüência de sua opção de vida, opção pelo Reino de Deus. Ninguém forçou Jesus a dar sua vida. Obediente ao mandamento do Pai, foi fiel até as últimas conseqüências. Ele descobriu que a vontade do Pai é a vida do ser humano e direcionou sua palavra e ação para a promoção da liberdade plena dos empobrecidos.

Eis, portanto, a exigência fundamental para ser pastor do rebanho do Senhor: dedicar-se ao serviço dos empobrecidos até a doação da própria vida. Na vida eclesial, quem se aplica à salvação da própria vida, à vaidade, ao desvio de dinheiro, ao carreirismo, ao controle das pessoas e comunidades e a tantos outros males que facilmente assistimos atualmente no cenário eclesial, tais pessoas não são verdadeiras lideranças, mas mercenários e falsos pastores. Os leigos devem ter firmeza e coragem não somente para desempenharem seus ministérios no seio da Igreja, mas, sobretudo, para denunciar estes mercenários e falsos pastores; do contrário, a hipocrisia e a alienação continuarão barrando o surgimento da liberdade dos filhos e filhas de Deus, pelo batismo sacerdotes e sacerdotisas do Senhor.

Tiago de França

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A espiritualidade do caminho (I)


“O caminho se faz caminhando”

Com esta reflexão inicio um conjunto de reflexões que pretendo oferecer a respeito do que intitulo espiritualidade do caminho. Algumas pessoas têm me solicitado alguma reflexão sobre este tema. Há muito que se falar sobre ele. O caminho é a nossa vida, uma caminhada que não tem fim. A morte não consegue por um fim em nosso caminhar rumo à eternidade. Esta parece ser o horizonte último para o qual orientamos nossa vida desde o nosso nascimento.

Nossa primeira reflexão vai tentar responder a duas indagações necessárias para uma melhor compreensão daquilo que será tratado nas reflexões seguintes: 1) O que é espiritualidade? e 2) O que é este caminho?

Em torno da palavra espiritualidade há diversos conceitos, porque são inúmeras as espiritualidades presentes na humanidade. Não queremos conceituar espiritualidade, mas partindo da sede que as pessoas tem daquilo que denominamos Deus, é preciso admitir que não existe ser humano que não seja espiritual. Olhando as diversas personalidades em suas histórias e sonhos, assistimos a busca por algo que está além, muito além do empírico, do fatual, do palpável, do explicável à luz da razão.

O ser humano é um mistério. Ele extrapola os limites da razão, passa a vida procurando entender a si mesmo, aos outros e ao mundo no qual vive: morre sem entender e sem poder expressar a totalidade da própria existência. O homem cria conceitos e sistemas, organiza-se e sistematiza-se, mas continua a escapar pelas frestas do inexplicável. Portanto, a primeira atitude diante da vida deve ser justamente esta: renunciar a pretensão de entender tudo e todas as coisas.

Neste sentido, é comum nos voltarmos para o outro, nosso semelhante, e medir seu jeito de ser e sua conduta. O que vemos e ouvimos não corresponde de forma alguma à pessoa que julgamos: ela é maior do que aquilo que constatamos. Nossos critérios de juízo não conseguem sequer dar conta de nós mesmos. Neste sentido, a espiritualidade consiste neste modo livre e espontâneo de viver e de enxergar o mundo e as pessoas. O mundo e as pessoas precisam de atitudes e olhares espontâneos e livres. A vida torna-se menos trágica quando assim procedemos!

Deste modo, ninguém pode dizer com exatidão conceitual o significado do que vem a ser espiritualidade. Vamos olhá-la na perspectiva da liberdade e da espontaneidade. Nosso olhar diz muito em nossa vida: somos condicionados pela nossa maneira de ver a vida. O olhar deve ser, antes de tudo, livre. Toda pessoa tem o direito de olhar com liberdade, ver a vida, contemplá-la sem constrangimentos e condicionamentos. Como seria bom se assim fosse!... Como seria bom se cada pessoa olhasse a vida com os próprios olhos e não com os dos outros!...

Eis uma valiosa e humilde idéia: Espiritualidade é liberdade. Esse transcender-se para além da vida cotidiana é algo extraordinário. Só os humanos podem isto. É algo sobrenatural que acontece a partir do humano, do naturalmente simples do cotidiano da vida. É sobrenatural porque a ciência não consegue dizer como isso ocorre, pois pertence à dimensão espiritual do humano. A ciência não chega à transcendência humana: dimensão do maravilhar-se diante do infinito mistério da vida.

Todo ser humano tende para a liberdade. Todos querem ser livres. Este querer é espiritualidade: busca incessante que ultrapassa os limites da existência. É uma vontade que lhe vem das entranhas, um anseio que impulsiona, que o empurra para frente, joga-o para o futuro.  Por isso, diante de toda espécie de privação da liberdade o ser humano se angustia, se entristece, chora, clama, recusa-se a submeter-se, grita!... Não há força que consiga abafar plenamente o desejo ardente do homem ser livre. A história está repleta de exemplos.

Então, espiritualidade é esse desejo de ser plenamente livre. Esse desejo não é fruto da manipulação, mas é comum a toda pessoa, é espontâneo. Por ser espontâneo é algo imprevisto, livre de planejamento, de ordenamento. Portanto, não precisamos dizer que as pessoas devem se libertar: elas sabem e querem isso. O que ocorre é que, muitas vezes, elas não sabem qual é o caminho que leva à liberdade plena. Há forças sufocantes que as cegam e tiram-lhes as forças para lutarem pela liberdade: forças de morte.

Afirmar que as pessoas desejam ser livres significa que elas querem ser felizes. Qual o caminho da felicidade? Os caminhos mais procurados são, na verdade, descaminhos. Nestes, só se encontram frustrações. Há pessoas que já não têm disposição nenhuma para caminhar, pois estão cansadas de procurar a felicidade fora de si mesmas, nas coisas criadas, na ilusão dos prazeres, nas promessas vãs de felicidade: perceberam que são escravas da busca e daquilo que encontraram.

A verdadeira felicidade está na liberdade e ser livre não tem ligação nenhuma com o prazer que as pessoas até então conseguiram. Na verdade, por mais que se negue, as pessoas buscam o prazer e não a verdadeira felicidade. Em todas as instâncias, o ser humano busca satisfazer-se, apropriar-se, ser reconhecido, ter o poder, sobressair-se. A lógica resume-se na seguinte sentença: Não importa o caminho a ser percorrido, o importante é ganhar sempre. Todos procuram ganhar alguma coisa. Limitar-se a isto é morrer plenamente, pois há um fechamento perigoso ao transcender-se a si mesmo.

Eis o mandamento capitalista: Todo aquele que ter e acumular será feliz! A maioria das pessoas pratica esta norma. Tais pessoas vivem angustiadas, deprimidas, insatisfeitas, solitárias, abandonadas e frustradas. Não são livres, mas excessivamente apegadas. Algumas procuram refúgio na religião. No caso do cristianismo, encontram-se com Jesus. Este não aponta para o templo rico e sistematicamente organizado, mas para o caminho: espaço de liberdade feito de riscos e imprevistos, de novidades e inseguranças. Este Cristo com seu caminho não são aceitos pela maioria porque se mostrou pobre, destituído de poder e, portanto, livre. Segui-lo é participar de sua sorte.

Na perspectiva deste Cristo, nos próximos textos, vamos pensar sobre alguns traços de seu caminho e da nossa caminhada. Vamos tentar ver qual a saída para nos libertarmos de nossos medos e angústias. Será que o caminho proposto por Jesus de Nazaré pode nos ajudar? Outra questão interessante é procurar saber com sinceridade e verdade os motivos que nos levam a resistir tanto diante do caminho proposto pelo Nazareno. Sejamos, pois, estes buscadores de Deus vivendo uma espiritualidade alicerçada na busca de ser realmente livre.


Tiago de França

sexta-feira, 13 de abril de 2012

PARTILHA FRATERNA


“Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou” (Mc 16, 6).

Amigos e amigas,

Neste ano, durante a semana santa, juntamente com a Ir. Zelaides, filha da caridade, estive em Vargem do Setúbal, pequeno povoado do município de Chapada do Norte – MG. Neste povoado existe uma Comunidade cristã assistida pelos Padres lazaristas residentes em Jenipapo de Minas e Francisco Badaró, cidades vizinhas.

Chegamos às 16h30 do sábado e fomos acolhidos em duas famílias. No outro dia, juntamente com o Pe. Paulo José, C.M. e a Comunidade celebramos o Domingo de Ramos. Na segunda, terça e quarta, à noite, na capela da Comunidade, que tem como padroeiro São Francisco de Assis, realizamos reuniões para discutir sobre o sentido de cada dia do Tríduo Pascal. Nestes dias realizamos várias visitas; damos prioridade aos enfermos. Celebramos com muito fervor, piedade e alegria o Tríduo Pascal. Após a Celebração da Vigília Pascal participamos de uma festiva ceia comunitária. Retornamos no domingo, bem cedo, para nossas casas.

Quero partilhar algumas reflexões que foram surgindo ao longo desta valiosa experiência. Sintetizando, eis o que me chamou a atenção:

1 – A ausência do Poder Público e a fraca assistência da Igreja.

Nas visitas e em outros momentos pude perceber as reais condições de vida do povo. Há carência de comida suficiente, de água potável, de remédios e tratamento digno de saúde, de escola de qualidade, de saúde física e mental. É preocupante o número de pessoas deprimidas e profundamente angustiadas: isto é perceptível no acentuado número dos que possuem perturbação mental. Antes de nossa chegada, um jovem de 18 anos de idade tinha se suicidado. No semblante de muitas pessoas há uma profunda tristeza e desânimo. Quando indagados, os jovens não sabem o que querem da vida, faltam perspectivas. Tudo é muito distante e os serviços públicos são escassos e precários.

2 – Há muita fé em Deus em meio a uma confusão religiosa.

As palavras e gestos das pessoas revelaram muita confiança na força e na presença de Deus. O povo acredita num Deus que pode todas as coisas e que, apesar do sofrimento e da morte, vem em socorro do ser humano. “Deus é bom!”, “Se Deus quiser!”, “Graças a Deus!”, “Deus querendo, tudo dar certo!”, “É assim porque Deus quer”, “Confio em Deus que tudo isso um dia há de passar!”: estas e tantas outras expressões demonstram a fé do povo. No povoado há, além da Igreja Católica, a Congregação Cristã do Brasil. Não há conflitos significativos entre elas, mas certa confusão doutrinal na cabeça de muitas pessoas. Enquanto o padre só aparece uma vez por mês para Celebração, o líder da outra denominação religiosa aparece todos os domingos e/ou quinzenalmente. De modo geral, as pessoas desconhecem a doutrina cristã católica e não vêem problema algum em participar das duas denominações religiosas.

3 – A perseverança e a vontade de viver diante dos claros sinais de morte.

O cotidiano da vida e a verbalização dos sentimentos e sonhos mostraram muita força de vontade por parte de muitas pessoas. Há uma viva esperança por um futuro melhor, menos doloroso e mais feliz. A luta incansável pela manutenção da vida é de causar admiração: “A gente vai vivendo até quando Deus quiser!...”, falava-me uma senhora, mãe de doze filhos, que vive doente à espera de uma cirurgia para a retirada de um rim que parou de funcionar. A dança, a música, a bebida, as brincadeiras, as conversas nas calçadas, a telenovela e as idas às Igrejas são estímulos que ajudam o povo a sobreviver. Há até quem vive rindo da própria desgraça!

A partir do Cristo ressuscitado e com os olhos da fé, estas realidades manifestam a presença amorosa de Deus que ama e não abandona seu povo. Para concluir, eis três considerações de ordem teológico-espiritual sobre a Páscoa cristã:

1 – A celebração da Páscoa não é mero culto, mas experiência concreta de fé.

A celebração da Páscoa de Cristo parte da vida concreta das pessoas, especialmente dos empobrecidos. Deus fez opção pelos últimos e ressuscitou Jesus de Nazaré. A ressurreição é o sinal de que Deus quer a vida de seu povo, é Deus libertando-o do poder da morte. Jesus foi fiel ao projeto do Reino do Pai até as últimas conseqüências e esta fidelidade o fez ressurgir para a vida plena. Esta vida é dom gratuito de Deus para o seu povo sofrido.

2 – A Igreja deve ressuscitar para a opção gratuita e preferencial pelos pobres.

A celebração da Páscoa cristã está perdendo seu sentido na Igreja, porque a experiência da saída da casa da escravidão está sendo marginalizada. Não há Páscoa sem passagem. A Páscoa não é culto, é passagem, é mudança, é saída da escravidão para a liberdade. A experiência da conquista da liberdade do povo de Deus não pode ser marginalizada. Ao celebrarmos a Páscoa devemos nos perguntar: Estamos nos libertando de que tipo de escravidão? Qual o real sentido de nossa celebração? O que estamos celebrando?... Sem opção preferencial pelos pobres não há autêntica celebração pascal.

3 – Ressuscitar é libertar-se e a liberdade conquista-se na comunidade.

De modo geral, as pessoas se “reúnem” para invocar particularmente o seu Deus. Elas invocam a Deus segundo seus próprios interesses e necessidades. Deus passou a existir em função das necessidades emergentes da vida. Esqueceu-se da relação filial conseguida pela adoção em Cristo Jesus. Somos filhos e filhas de Deus, não meros pedintes e prestadores de culto.

Falar do ressuscitado é falar de túmulo vazio. Há uma excessiva ênfase no túmulo vazio. Esqueceu-se do envio ao mundo. Jesus pediu às mulheres para que anunciassem a Boa Notícia da Ressurreição. Elas querem tocá-lo, ajoelham-se e abraçam seus pés, mas ele as envia em missão. Ele não quis que elas ficassem ali na tranqüilidade da contemplação, mas as envia para o mundo: Vão, digam às pessoas que estou vivo, que quero permanecer com todos vós!

Ressuscitar é isto: é ir, é decidir-se pela missão, é dizer para as pessoas que o sentido de suas vidas está naquele que lutou para que todos fossem livres, é anunciar a Boa Notícia do amor que supera o ódio, a indiferença, a intolerância, o preconceito, a vingança, a inveja e tantos outros males que agridem e desumanizam as pessoas. Celebremos, pois, a Páscoa de Cristo indo ao encontro do outro, nosso irmão. A Páscoa acontece na fraternidade. No espírito do Cristo ressuscitado construamos, pois, um mundo mais justo e uma Igreja mais solidária, mais humana e, conseqüentemente, mais comprometida com as grandes causas do Reino de Deus.

Feliz Páscoa!


Tiago de França da Silva
Belo Horizonte – MG, 12 de abril de 2012.

terça-feira, 27 de março de 2012

CARTA ABERTA AO PADRE JOSÉ COMBLIN


Prezado amigo Pe. José Comblin,

Por ocasião do aniversário de um ano de tua páscoa resolvo te escrever. Penso que estás muito bem, pois ansiavas muito pelo encontro definitivo com aquele que nos chama à vida. Recordo-me de tua incansável luta entre os pobres e teu espírito crítico em relação à Igreja, que conforme pensavas, os tinha abandonado.

Os incomodados sempre te acharam exageradamente crítico, mas quando olhava de onde vinha a crítica, era possível compreender o incômodo. Quero, nesta breve carta, partilhar contigo e com aqueles que dela fizerem leitura, três qualidades de tua pessoa que sempre me chamaram a atenção e me edificam.

Tua humildade. Os homens eruditos da Igreja, meu caro amigo, são reconhecidos não somente pelo seu saber, mas pela falta de acessibilidade. Há teólogos que até parecem autoridades políticas: difíceis de serem encontrados, são inacessíveis. São de uma formalidade e de um linguajar que somente pessoas eruditas os escutam e entendem, são teólogos de gabinete.

Quem te conheceu de perto sabe de tua humildade, que se manifestava no teu jeito de falar sobre os diversos campos do conhecimento humano que dominavas tão bem e na tua cordialidade na relação com as pessoas. Teu jeito tímido, mas comunicativo, atraía as pessoas. Todos esperavam ansiosamente pela palavra que saía de tua boca nas palestras, conferências, retiros e cursos, assim como nos artigos e livros que escreveste. Falavas com humildade e profundidade sobre questões complexas e pertinentes.

Tu fizeste uma opção de morar entre os pobres e com eles aprendeste o jeito humilde que caracteriza o verdadeiro pobre. Aprendeste e ensinaste que ser pobre não é ser amaldiçoado, como pregam muitas de nossas Igrejas. Leste nos evangelhos que Jesus era pobre, destituído de poder e para não entrares em contradição com teus escritos resolveste viver e morrer no meio dos pobres. Os pobres te escutavam com amor e atenção porque viam em ti um homem sábio e pobre.

Tua coragem. Os eclesiásticos, de modo geral, são muito medrosos. Por terem uma vida segura e estável, sem risco algum, são encarcerados pelo medo. Quem tem sua vida assegurada possui grande medo de perdê-la. Para isto, fazem de tudo para mantê-la bem, na devida estabilidade. Estão longe daquilo que foi Jesus: pobre homem que não tinha onde reclinar a cabeça. Identificar-se com este Jesus é correr sérios riscos na vida, pois ele não oferece segurança nenhuma.

Certo dia, um bispo induziu as pessoas pensarem que tu não eras profeta, mas crepúsculo de profeta. Disse também que sofrias do mal daqueles que se revoltam ou que perdem a lucidez. Pobre bispo, não te conhecia suficientemente bem. Tua coragem de criticar a Igreja chamava a atenção de todos. Assim como Jesus criticou a religião de seu tempo, tu, na continuidade dos profetas da nova e eterna aliança, criticaste a Igreja porque a amaste até o fim de tua vida. Tu morreste presbítero da Igreja: testemunha fiel que não se cansou de denunciar as infidelidades dos falsos pastores e falsos profetas.

Tua liberdade. Este tema sempre causou problema na vida da Igreja. Esta sempre teve medo da liberdade. Na Igreja, quando se fala de liberdade, tal expressão sempre vem acompanhada de outros adjetivos: liberdade direcionada, condicionada, explicitada com justificativas pouco plausíveis. Isto explica o medo da Igreja em relação à modernidade. Esta inaugurou a liberdade dos sujeitos e denunciou a falta de liberdade no interior da vida eclesial.

A tua liberdade estava alicerçada no teu testemunho de vida. Tuas palavras e gestos eram de um homem que cultivava a liberdade, que buscava viver em função da liberdade. Isto te dava autoridade para falar a verdade a todos. A liberdade é o fio condutor do teu fazer teológico e foste muito feliz nesta árdua empreitada.

Ensinaste que fora da liberdade não existe felicidade nem salvação. A salvação do povo de Deus é sua liberdade plena. O Deus e Pai de Jesus, nosso bom Deus e Pai, é o Libertador. Todo ser humano, independentemente de credo religioso e cultura, deseja ser livre. A liberdade não tem religião, todos têm direito a ela e nela podem ser felizes. Fora do caminho da liberdade, que para os cristãos é o caminho de Jesus, nenhum ser humano consegue se realizar e, portanto, ser feliz. É preciso se colocar neste caminho, ser corajoso e nele perseverar até as últimas conseqüências. Tu assim o fizeste e encontraste a plena liberdade.

Meu caro amigo, estás fazendo falta no cenário eclesial. Nossa Igreja continua ameaçada pela letargia e pela mediocridade. Tudo parece envolto na inércia. Os pobres continuam clamando por justiça e são poucos os que para eles olham, sentem compaixão, se aproximam e derramam óleo em suas feridas. Há belos projetos e documentos, mas parece que não se sabe bem para onde se vai... Faltam referências significativas, a situação é preocupante.

Tua profecia está viva. Teus livros não foram proibidos. Há muita gente lendo e relendo, encontrando-se e reencontrando-se, buscando ser livre e ajudando na libertação. O Espírito que esteve contigo continua conosco, vivo e atuante; inquietando muita gente e desorganizando aquilo que sempre foi considerado puro, santo e divinamente inspirado. Tua profecia é sinal autêntico da presença do Espírito na Igreja e nós bendizemos a Deus por isso.

Recomendo-me às tuas preces junto a Deus, porque para te considerar santo não preciso esperar por canonização. Santos como tu não são canonizados na Igreja há muito tempo!...

Teu amigo e irmão em Jesus de Nazaré,


Tiago de França
Belo Horizonte – MG, 27 de março de 2012.

sábado, 24 de março de 2012

Dom Oscar Romero, santo profeta de Deus


“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar sua vida, a perderá; mas, o que perder sua vida por causa de mim e do Evangelho, a salvará” (Mc 8, 34 – 35).

As pessoas querem ganhar a vida, todos querem se salvar. Ganhar a vida segundo a lógica deste mundo significa progredir, crescer, ter sucesso, ser reconhecido, dar-se bem em tudo. O mundo construído a partir desta lógica não permite que todos ganhem a vida, haverá sempre os perdedores, os derrotados, os que passam toda a vida lutando, mas fracassam; fracassam porque não há espaço para todos. Há pessoas que nascem e morrem sem ter acesso ao ganhar a vida, sem serem, à luz deste mundo, felizes.

Quando Jesus foi enviado a este mundo, encontrou muitas pessoas lutando para sobreviver: mulheres, crianças, paralíticos, leprosos, cegos, doentes, iletrados, pecadores públicos. Estas pessoas não eram consideradas, não as levavam em conta, eram excluídas. Quando Jesus leu o primeiro testamento das Escrituras percebeu com facilidade que seu Pai tinha libertado o povo da escravidão e reconheceu que o caminho da liberdade é o caminho de Deus. Então, sem medo algum, se colocou a serviço da liberdade do povo de Deus renovando, assim, a antiga Aliança.

Dom Oscar Romero, bispo da Igreja, depois que foi eleito Arcebispo de El Salvador, na América Central, vendo os empobrecidos sendo brutalmente assassinados, releu o Evangelho de Jesus e arriscou-se no caminho da liberdade. Antes de arriscar-se, queria salvar a própria vida em detrimento da vida do povo de Deus; mas os apelos do Espírito e o clamor do povo massacrado não permitiram que o bispo vivesse na indiferença. Então, em meio à cruel ditadura militar salvadorenha, Dom Oscar Romero assumiu a profecia, despojando-se do medo e denunciando a tortura sangrenta.

Os militares, os irmãos bispos e o Papa surpreenderam-se com a conversão do bispo profeta. Ninguém esperava que ele iria compartilhar o sofrimento dos empobrecidos, porque era famoso por sua fidelidade a um modelo de Igreja voltado para a sacristia, uma Igreja preocupada consigo mesma. Os militares denunciaram-lhe a Roma, o Papa recomendou-lhe que fosse prudente no conflito com os militares, os irmãos no episcopado o ignoraram, o profeta se viu sozinho com seu povo. O Espírito o fez vencer o medo e a falsa prudência; o bispo entregou-se, destemidamente, ao sagrado ministério da profecia.

A Igreja pensada e vivida por Dom Oscar Romero estava totalmente voltada para a conquista da liberdade do povo de Deus. O seu evangelho era o de Cristo: Evangelho da liberdade. Ele sabia que a liberdade gera a verdadeira vida, fé e vida entrelaçadas. Suas denúncias eram diretas, claras, corajosas, fortes, ditas em bom tom, sem esconder nomes. O povo identificou-se com ele porque viu que se tratava do pastor que conhecia a vida de seu rebanho e estava disposto a dar a própria vida se preciso fosse, como, de fato, o foi.

No dia 24 de março de 1980, durante uma Missa, no altar do Senhor, Dom Oscar Romero foi assassinado a tiros. Morreu no exercício da profecia, diante do altar do Senhor, na celebração da memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Foi um fiel discípulo e missionário do crucificado-ressuscitado, a exemplo de Cristo participou da dor do povo de Deus até as últimas conseqüências. O povo chorava desesperadamente a morte de seu pastor e diante do venerável corpo se perguntava: “O que será de nós sem este santo profeta de Deus?...”

O que o testemunho de Dom Oscar Romero fala para a hierarquia da Igreja? Para não cometermos injustiça contra os que se dedicam ao serviço libertador do povo de Deus, é preciso louvar e agradecer a Deus pelo pequeno número dos profetas que temos na hierarquia da Igreja: Dom Pedro Casaldáliga, Dom Edmilson da Cruz, Dom Flávio Cappio, Dom Mauro Morelli e outros bispos e padres identificados com a libertação integral dos empobrecidos. Há um número cada vez mais acentuado de bispos e padres que, em detrimento da liberdade e da vida dos excluídos, identificam-se com o poder e com os poderosos deste mundo. Infelizmente, o número dos que assim procedem é grande e aumenta cada vez mais.

Os que se identificam com o poder querem mais poder. A sede pelo poder é visível entre os ministros ordenados da Igreja. Suas atitudes transparecem tal sede: amizades e alianças com poderosos, vida luxuosa, competição, carreirismo, busca de títulos e reconhecimentos, autoritarismo; são rubricistas e aparentemente fiéis às orientações da Igreja, são moralistas e gostam de bajular a figura da autoridade eclesiástica, isentam-se de criticar a estrutura hierárquica e alimentam falsa prudência em relação ao mundo, condenando-o e o demonizando etc. Por fim, é preciso não esquecer de que são fiéis perseguidores dos profetas de Deus.

Após converte-se ao caminho da liberdade, Dom Oscar Romero despojou-se de toda espécie de ambição; transformou seu ministério de bispo num instrumento de libertação dos empobrecidos. Viveu a autêntica espiritualidade do bom pastor descrita no evangelho segundo João (cf. Jo 10, 1 – 21): apascentou o rebanho do Senhor até a doação da própria vida. Seu interesse era a vida do povo.“A glória de Deus é o povo livre”, gostava de afirmar. Abraçou a coroa do martírio com a liberdade de quem só obedecia a Deus, seu testemunho torna fecunda a missão da Igreja e a orienta para o caminho de Jesus de Nazaré.

Celebrar a memória do martírio de Dom Oscar Romero não é somente recordar seu testemunho profético, mas nos perguntarmos pelos profetas da Igreja de hoje. Somos batizados em nome de Deus, o Espírito de Deus habita em nós, deixemo-nos, portanto, guiar por este Espírito e a profecia jamais cairá. A profecia revigora a Igreja e a torna, de fato, instrumento de salvação da humanidade, conforme pensou o Concílio Vaticano II.

Os profetas nos provocam e nos concedem a graça de voltamos às origens da Igreja, marcadamente profética; somente assim teremos uma Igreja mais humilde, humana, acolhedora e servidora da humanidade, preferencialmente dos empobrecidos. Que Dom Oscar Romero interceda a Deus pela conversão da Igreja, a fim de que ela seja verdadeiramente Povo de Deus em marcha rumo à plenitude do Reino de Deus.


Tiago de França